É hoje, meu amor? por Orlando Eller

Orlando Eller Publicado por em fev 20 2012. Arquivado em crônica, música popular, posts. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

Crônica

História real que o jornalista guardou durante 26 anos e escreveu neste domingo de carnaval.

Toda vez que aparece eterna e exuberante na tela, como neste Carnaval de novo, a senhora Luiza Brunet me revolve na memória inusitada história da tarde de um dia quando, convidado para ser assessor de imprensa da Vale em Vitória, em fins de 87, me vi conduzido a uma sala, à presença de um poderoso senhor, cujo nome prefiro preservar.

Depois de um incômodo chá-de-banco, ele me recebeu. Meu acompanhante, visivelmente constrangido, pôs-se de pé, em sentido, diante da mesa executiva de jacarandá, onde o chefe jazia sentado absorto entre papéis. Ao lado dele, percebi que era necessária uma senha, ali traduzida como incômodo silêncio.

De repente, aquele poderoso senhor passou seus olhos em nossa direção e indagou:

- O que vocês querem?

- Doutor, estou aqui para lhe apresentar o Orlando Eller. A partir de hoje ele é nosso jornalista…

Ele encurtou a conversa:

- Jornalista? Pra que a gente precisa disso?

Não bastasse aquele recado que emudeceu meu anfitrião, decidiu olhar-me nos olhos pesadamente, quase sem piscar os seus. Tentei entendê-lo e esbocei sair por onde entrara. Mas como a sala então assim se fez exígua, adiantei-me e, certo que em nada estaria perdendo, respondi-lhe:

- O senhor por acaso já olhou pela janela da sua sala?

- Olhar pela janela? Pra quê? O que significa isso?

- Significa que o senhor ainda não observou com a devida atenção que não há mais tanques na rua; todos se recolheram às casernas, o Exército, a Marinha, a Aeronáutica, a Polícia Federal. Enfim, o que há na rua é só povo retomando as rédeas…

- E daí?

- Daí é que o senhor, se consciente do seu papel, começará a abrir as portas da Vale. Tudo o que fizeram até hoje terá que ser diferente. Jornalistas, lideranças, comunidades e toda a gente já incomodada com o gigante que faz sem dar satisfação, que polui sem controlar e que nada dá em troca, passarão a exigir. E se não lhos responder, eles lhe entrarão Tubarão adentro. O senhor parará suas máquinas e os receberá com biscoitos e água de coco…

Levantou-se da mesa, deu-me a mão e disse ao meu acompanhante:

- Está bem, agora podem ir.

Tempo de crise na Opep, petróleo escasso e em alta, soube certo repórter de A Gazeta que a Vitória a Minas estava testando mistura de combustível em suas locomotivas, com resultados animadores que reduziriam o custo das operações.

- Eu quero ouvir alguém da Vitória a Minas…

Fui ao poderoso, que testou minha paciência no banco, até que…

- O que você quer de novo?

- Doutor, um jornalista de Economia, da Gazeta, quer informações sobre testes que os senhores estão fazendo com uma mistura de combustíveis nas locomotivas…

- Já sei, já sei, vai procurar o doutor Fulano, gerente-geral da Mecânica. Ele é o responsável pelos testes. Diga a ele que está autorizado a dar as informações.

Agradeci e, enquanto dava meia-volta para sair da sala, ele me deteve:

- Meu jovem, saiba de uma coisa. Eu só serei notícia no dia em que comer a Luiza Brunet…

- Doutor, o senhor tem um gosto refinado. Se caírem migalhas da mesa, assovie…

Ele deu uma gargalhada. Isso bastou-me para saber que havia entendido a leitura de que já tardava à Vale tomar a iniciativa e escancarar seus portões para a sociedade. Afinal, era até então só caixa-preta, lugar inexpugnável em
cujo portão se via em garrafal: “Área de segurança nacional. Proibida a entrada”. Coisa da ditadura.

Não tive qualquer dificuldade em chegar ao gerente-geral.

- Doutor, sou o assessor de imprensa. Prazer! Tem um jornalista que quer saber… e o doutor lá, seu chefe, mandou atender. Aliás, não posso mais procurá-lo já que foi incisivamente enfático ao me dizer que será notícia só quando comer aquela modelo, a Luiza, o senhor sabe…

O jornalista foi atendido.

A partir de então me senti aceito. Outras portas e, mais frequentemente, a do próprio doutor, foram se abrindo uma a uma e passei a compreender e a admirar aquele fantástico mundo dos trilhos e dos seus trens. Mas a facilidade não foi a mesma em Tubarão, onde jaziam usinas e portos, integrados em cenários extraodinários.

Em meados de 89, não atendido em sua decisão de impor à Vale (como às demais grandes empresas) compromisso de investimentos destinados a controlar gases e poeiras, o governador Max Mauro determinou a interdição das então seis usinas de pelotização do complexo de Tubarão.

Embora esta história mereça uma crônica especial, porque aos “gases” da Vale a imprensa já creditava o nascimento de anaencéfalos, só aí aquele doutor e demais pares decidiram olhar pela janela para enxergar o mundo externo com
outros olhos.

Anos depois, véspera de um solene dia de lançamento da pedra fundamental para construção do Terminal de Produtos Diversos, aquele doutor, já diretor executivo da Vale, chamou-me a um canto à entrada do Hotel Porto do Sol, em que acabara de chegar do Rio, e me disse:

- Orlando, seu filho da puta, pensei muito em você hoje, durante o vôo…

- Que bom, ficaria feliz se me concedesse um aumento…

- Nada disso. Sabe aquela história da Luiza Brunet? Você a contou para o gerente, que a contou para a mulher dele, que é comadre da minha mulher. Desde aquele dia, e hoje novamente, toda vez que pego minha mala para viajar, a minha mulher me pergunta:

- É hoje, meu amor, que você vai comer a Luiza Brunet?

Orlando Eller é jornalista

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10 Comentários para “É hoje, meu amor? por Orlando Eller”

  1. Rubens Pontes
    rubens pontes

    Uma delicia de crônica que não camufla o registro, com gravidade,o que foi a reintegração da sociedade aos novos tempos pós-governo militar.

    Pena que,passado já tanto tempo, políticos tenham assumido a postura que. como escreveu Orlando Eller, vestiam os diretores executivos da época.

    Ah! eleições, ah! ficha limpa, salvai-nos enquanto é tempo.

    Rubens

  2. Orlando Eller, não só pela intimidade que possui com o idioma, mas, principalmente por suas experiências de vida, é digno de ter seus escritos editorados.

    Por quê os senhores não promovem esse livro?

    Patricia Neme, incondicional admiradora (fã de carteirinha) desse que é um dos maiores jornalistas deste país; porque inteligente, culto, irônico e dono de um profundo senso crítico.

  3. Romildo Guerrante

    Que pena Orlando não estar mais na Vale. Chegar em Vitória e conversar com Orlando Eller foi minha alegria, mais de uma vez, enquanto trabalhei na Vale. Como sabe – e gosta de – contar histórias! Essa da Luiza Brunet é maravilhosa. Tava rindo sozinho aqui e algumas pessoas em volta queriam saber de que ria tanto. Não dá pra contar. Vou imprimira história e distribuir. Orlando tem muito mais pra contar. Tá nos devendo um livro.

  4. Luiz Dalvi

    Orlando, lendo essa crônica é o mesmo que ficar lhe ouvindo ou debatendo algum assinto em que temos algo em comum ou admiração no que o torna uma pessoa tão especial que queremos sempre tê-lo por perto como amigo. Parabéns e fé na vida que tudo vale apena ser vivido e compartilhado.

    • SARAGAIA

      Boa , Orlando. Gosto de seus textos. Sempre os leio. Quanto ‘a Brunet, tenho certeza que até minha esposa perdoaria se eu tivesse a oportunidade…
      Abracos,
      Jose Antonio Rezende

  5. Bertilio Romais

    Grande, Orlando, essa foi de perdoar mesmo. Porque a Brunet é demais. Ademais, um jornalista como você, torna o “script” bom demais. Você é demais!!! Abraço.

  6. Aí Orlando!
    Tua crônica é melhor do que a Luiza Brunet. Alguém sugeriu reunir tuas crônicas em livro e considero isso tarefa fundamental para preservar a memória de nossa literatura universal.

  7. ANA MARIA GOULARTT

    AMEI ,DE LINGUAGEM BEM FACIL,OU POPULAR,CLARA E OBJTIVA ,A LUIZA DEVE MESMO TER NASCIDA VIRADA P LUA ,POIS SE RETRATA ATÉ EM QUESTÕES ,PROBLEMATICAS .MT MT BEM PARABEMS AO SR.JORNALISTA ORLANDO ELLER,Q POR SINAL SE EXPRESSA MAGIFCAMENTE N SOMENTE EM SUAS CRONICAS,MAS EM TD Q QUER NOS PASSAR.

  8. ANA MARIA GOULARTT

    HONESTAMENTE,HONRADA EM TE-LO COMO AMIGO!!!

  9. Orlando Eller
    Orlando Eller

    Obrigado, Ana Maria Goulartt.
    Abraço.

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