Crônica
Lembro-me de uma aula de português no antigo Colégio Estadual do Espírito Santo. Dizia o preclaro professor que, antigamente, logo depois de a invenção dos irmãos Lumière ser apresentada à sociedade parisiense, o novo fenômeno era conhecido no Brasil por cinematógrafo; depois, como esse nome era muito grande, quase impronunciável, foi diminuído e popularizado para cinema; logo depois, algumas casas de projeção adotaram o cine; chegará uma época em que o chamaremos de ci.
Pelo ci ou pelo não, sou um grande frequentador e admirador da chamada sétima arte. Sempre fui. É uma arte popular, de grande disponibilidade, barata (principalmente para idosos), uma mistura maravilhosa de imagem, som, música, fotografia, literatura, teatro etc. Enfim, a cortejada cultura.
Por mais que tenha a concorrência da televisão e especialmente das modernas facilidades domésticas como as grandes telas, os home theaters, filmes em profusão, DVDs, Blue Rays e outras milongas mais, o cinema, propriamente dito, está em grande evolução. A minha relação com esse admirável mundo novo é problemática: não consigo assistir a filmes na telinha, pois durmo na frente da tevê. Sou fanático mesmo pelo chamado cinema de rua. Agora muito mais confinado aos ambientes dos shoppings.
- Os Irmãos Lumière, inventores do cinematógrafo
Aquele cinema para ir ao qual a gente se prepara para sair de casa, se adentra numa sala escura de projeção, preferencialmente sem pipoca nem Coca-cola, em que passa duas horas sem interrupção e, depois, acompanhado da mulher e/ou de amigos, com quem eventualmente se combina a ida juntos ao cinema, vai comer uma pizza, analisando e discutindo o que foi visto. Cinema na tela grande ou como também dizem, cinema no cinema, é um ato social. Ver cinema em casa é diversão ligeira, digestiva.
Assistir a um filme, na sala grande, é como participar de um ofício religioso, com sua liturgia própria: começa-se em casa brigando com a mulher para que ela não se atrase; a seguir, na sala de projeção, celulares desligados, nada de conversas, sem comentários sobre o que está sendo visto na tela, silêncio profundo como quando se assiste a um recital sinfônico. Isso é o ideal, não necessariamente o que ocorre.
Ultimamente tenho visto filmes maravilhosos, a safra é ótima. Um dos meus irmãos comenta que os filmes a que eu assisto sempre são maravilhosos. Lógico, eu os escolho a dedo. Vejam só a colheita nesta virada de ano: Um Conto Chinês (argentino), A Pele em que Habito (um Almodóvar, portanto, espanhol), A Árvore do Amor (chinês), O Último Dançarino de Mao (australiano), O Dia em que Eu não Nasci (alemão-argentino), Medianeiras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual (argentino, por supuesto), e Borboletas Negras (alemão-holandês e africano do sul).
O cinema brasileiro também está ótimo: O Palhaço, Meu País e o admirável documentário, fora do comum, As Canções, de Eduardo Coutinho.
Por outro lado detestei o último Sherlock Holmes e As Aventuras de Tintim. Ambos americanos. Quanto ao primeiro eu não entendi nada. No segundo, de Steven Spielberg, o Tintim foi americanalhado. Tintin (que eu conheci pronunciando Tantan, nas aulas de francês) perdeu a sua áurea original. O cinema americano está muito veloz e violento, como os dois filmes citados.
Não que os americanos não façam bons filmes. Mas a grande produção para consumo de massa é horrível. Aguardo com ansiedade os concorrentes ao Oscar, que geralmente são muito bons. Ah! Por falar nessa estatueta, lembrei-me do Meia-Noite em Paris, do Woody Allen: soberbo! Seria uma injustiça não o citar aqui, entre os melhores filmes vistos recentemente. Mais um destaque de filme americano: Os Descendentes que concorre ao Oscar de melhor filme deste ano. Bom também é o cinema iraniano: assisti mais recentemente a A Separação, que está cotado a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Vou poupar o leitor de resenhá-los.
Já dizia um amigo irreverente que “fora da sacanagem não existe salvação”. Eu uso um derivativo: “fora da arte não existe salvação” (o que não exclui evidentemente, a sacanagem, mas sim a vulgaridade e a pornografia). Parafraseando um dito religioso muito em moda eu digo também: “só a arte salva”. Além dela, meu computador também. E cinema, como já rotulado, é uma arte, a sétima; não sei precisar bem o quem vem antes nem depois.
Um bocadinho de autoajuda não faz mal a ninguém: eu não sei o que a maioria dos colegas aposentados faz para viver o tempo sem cinema. Talvez eles vivam a matar o tempo. Cinema, muito cinema; literatura, muita literatura; e música, muita música é o que aconselho.
Um registro: no Rio, a audiência das sessões vespertinas é composta basicamente de cabeças brancas. Ficam lotadas. Aqui, na Grande Vitória, são poucos os cabelos grisalhos nas salas de projeção. No Cine Metrópolis, da Universidade Federal, e mesmo nos Cines Jardins eu já assisti filmes com três pessoas na sala. Naquele cinema é muito comum a rala audiência, principalmente a vespertina. Lá há um bom estacionamento grátis, e o idoso paga, no meio da semana, o irrisório preço de R$ 3. Nos Jardins a entrada custa R$ 5. Aproximando-se os finais de semana são adicionados R$ 1 ou R$ 2 a esses valores. Mas o problema não é bem esse, é preguiça mesmo.
Um pouco de história: quando voltei para o Espírito Santo, em 1997, depois de 32 anos vivendo alhures, Vitória tinha somente dois locais de cinema: o já citado Cine Metrópolis (desde 1992) e três salas no Shopping Vitória (inaugurado em 1993). Atualmente conta com dezenas, principalmente nessas catedrais de consumo e alimentação, os padronizados shoppings. Sou levado a acreditar que, antes daquelas datas, na virada das décadas de 80 para a de 90, não existiam cinemas em Vitória. Como um aposentado cinéfilo poderia viver naquela cidade, àquela época? Creio que isso não foi exclusividade de Vitória; nas demais capitais, com exceção do Rio, São Paulo e Brasília talvez tenha ocorrido o mesmo fenômeno.
Voltando a Vitória, possivelmente, antes de virar igreja evangélica, o Cine Santa Cecília talvez pudesse ainda existir naquela época como exibidor de filmes exclusivamente pornôs. O Cine São Luis também virou igreja. De vez em quando, eu assistia a alguns filmes num cineminha bem humilde, no bairro da Glória, em Vila Velha, onde passei a residir. Era o Cine-Teatro Garoto, que se finou quando a fábrica de chocolate foi comprada pela Nestlé. Segundo o historiador Tatagiba, a capital do Estado já teve 13 salas de projeção no seu auge. Em 1985 (último ano de sua pesquisa) estavam reduzidas a somente quatro. Em 1990, acredito que tenha chegado a zero, conforme minhas especulações.
Curiosidades: no tempo das sessões contínuas, em Vitória, era comum o espectador entrar no meio do filme, assistir ao seu final e, depois, ao seu início na sessão seguinte. Isso me lembra um famoso cineasta francês que respondendo à pergunta: se um filme precisa ter início, meio e fim, disse: – “Sim, mas não necessariamente nessa ordem”. Quando criança eu nunca assistia a uma única sessão. Sempre eram duas. Nas matinês infantis, quando a luz do cinema apagava era uma gritaria ensurdecedora misturada com palmas em profusão da garotada excitada. Eu lá! Lembram-se dos piadistas do escurinho! Gritavam “gol” quando os artistas se beijavam ou numa cena mais ousada lançavam suas graças, que o povo acolhia com estrondosas gargalhadas.
Por falar nisso, foi no Cine Jandaia, que assisti a grandes cenas de nudez. A mulher que mais me sensibilizou (e põe sensibilidade nisso) foi Martine Carol. Ainda tenho nítida a imagem da parte posterior do seu joelho, onde sua perna se articulava com a coxa. Outra mulher sensual era a italiana Rosana Podestá – a Helena de “Helena, a Rainha de Tróia”. A cena da Lollobrigida entrando nua numa piscina ficou indelevelmente marcada na minha memória e nas minhas entranhas. E mais: Brigitte Bardot, Marilyn Monroe! Eram as mulheres da minha vida de então! Virtualmente, eu era muito bem servido!
Outro registro: também no Rio, fiquei sabendo que a municipalidade vem ressuscitando, nos bairros da zona norte, os chamados cinemas de rua. Alvíssaras!
Genserico Encarnação Júnior
jornalego@terra.com.br
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Leio Genserico e fico com a certeza de que cinema é coisa séria.
Lá nos anos 50/60, em Belo Horizonte, não perdia as sessões de
“cinema na rua” exibindo em praças públicas séries de Flash Gordon, filmes de Tom Mix e Buck Jones…
Filme bom é aquele que fica na nossa memória e o excelente
artigo de Genserico Encarnação Júnior atesta essa asserção.
Rubens