Monção

David Nobrega Publicado por em jul 31 2011. Arquivado em poesia, posts. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

Desanuviô dotô,
Os pássaro tão de vorta nas foia das arve
A terra tá fumaceando
A neblina tá subindo pro céu

Os bois eu já sortei, dotô
Tão tudo lá no pasto
Comendo e drumindo,
Acordando e vagando prá ninhum lugá.

As barranca que desceu na chuvarada
Nóis, os peão tamo limpando
Sua estrada vai tá limpa amanha
Nem suja as bota sua muié num vai.

Craro que vai demorá uns pouco
Pra tudo vorta nos lugá
Tem teiado com gotera
Tem cerca prá arrumá.

Só uma coisa num tem cunserto, dotô
Nossos barraco que o sinhô nos cedia
Foi simbora com aquele mar
Todas nossas coisa tá na lama
Virou um brejo nosso quintar
Nóis tudo sabe que o dotô também tem seus pobrema
Que se pudesse havera de nos ajudá
Mas bem queria que o sinhô falasse era com Deus
Aquele qui o dotô tem no altar
Podia dizê pra’Ele que Amâncio, este vosso criado
Está muito chateado e de coração partido
Pois Ele deixou que sua fiinha de 8 mês
Rolasse junto com as traia e o barro fedido.

Mas num se amofe não dotô… Nóis é peão de longa data… daqueles de dormi nu frio do relento.
Mesmo com a alma trincada de sardade da minha menininha.. num havera eu de fazer valê meu talento?

URL curta: http://donoleari.com/bompracabeca/?p=715

4 Comentários para “Monção”

  1. Rubens Pontes
    rubens ponbtes

    Ah! velho Catulo! Peço-lhe desculpas e endereço-as para onde você estiver.

    Foi preciso ler “Monção”, do poeta e escritor David Nobrega, para que

    minha memória e meu coração voltassem ao passado, já bem distante,

    para reverenciar os versos que tanto me encantaram, agora revividos

    na leitura do poeta gaucho. Obrigado, a um e a outro.

    Rubens Pontes

    • Don Oleari
      Don Oleari

      Meu caro parceiro e amigo Rubens Pontes, logo que li fiquei na dúvida sobre a origem do David Nóbrega, que sabia ser paulista, como confirmou, filho de pais que viveram na roça. Em “Moção” (e óia só quinum entendeo disso daí não, sô) Nóbrega me pareceu um nativo falando a linguagem dos peão dos pampas, concorda?
      O que me encanta nisso tudo, Rubens, é que você, que tem me acompanhado de perto nesta fase de loucuras infernéticas, e eu imaginamos jamais que fôssemos encontrar um parceirão de alma nobre e de bunitu pruseadu, em versos cativantes.

      • David Nobrega
        David Nobrega

        Chefe, sou do Brasil e pelo Brasil andei muito. A cada canto há um novo encanto, uma nova prosa, uma nova entonação que nos garante um amém de diversidade.
        O falar jeitoso do caipira paulista é esse daí. E como se diz lá em minha saudosa tatuí de muitas infâncias, o pinto de lá faz pirrrrrr.

    • David Nobrega
      David Nobrega

      Catulo, Zé da Luz, Patativa: esses são os mestres.

      Grato pelas palavras, Rubens ;)

Deixe uma Resposta

Login | Desenhado por Gabfire themes