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Sexta santa dos marimbondos | Orlando Eller

5th abril 2012   ·   3 Comments

Era sexta da Paixão, entre tantos um dia santificado, em que nada mais haveria senão espichado culto pela manhã e almoço em que sobressairia, como anos a fio era praxe naquele internato de muitos meninos, saboroso misto de bacalhau com batatas. E, como sobremesa, um punhado de bombons, jeito de antecipar o sabor da Páscoa.

Era ocasião insólita, de consagrada reverência, não raro a sós num quarto, em silêncio. Se pela manhã se cantara a liturgia no rito gregoriano, a tarde era apropriada para reler o texto de Isaías 53 e meditar no sofrimento do Deus encarnado cuja ousadia recomendava inverter absolutamente o sentido do olho por olho, substituindo-o pelo, cá entre nós, talvez louco gesto nada humano de amar inimigos e orar pelos que perseguem semelhantes.

Decidi não ler Isaías, texto que de belo me incentivara a decorar palavra por palavra. Assim, saí tarde afora sem companheiro e, sozinho, pisei ruas de terra batida em meio a casebres de um lugar pobre da paulicéia de onde brotava a vila de Campo Limpo. Desejava encontrar um só que fosse entre tantos campos em que pudesse me divertir com a beleza do futebol de várzea. Mas não achei pelada, era dia de recolhimento.

Fui até o coração da vila, na praça de onde partiam ônibus para Belezas, Santo Amaro e Anhangabaú. Descobri inusitado movimento de multidão, vaivém que me provocou, tantas eram falas e olhares. Muita gente afluía a uma abandonada pastaria sem bois nem cavalos, descampado em morro cheio de touceiras e arbustos. Aderi à procissão porque ali se encenaria a Paixão de Cristo.

Contei dois padres e algumas irmãs, paramentados. Eles lideravam a comunhão entre tantos de umas mil famílias, a maioria atores improvisados em brutos soldados romanos, em discípulos cansados ou sonolentos, em multidão curiosa da Judéia, da Samaria e de Jerusalém. E lá também estava a nata, escribas e professores da lei. Havia de tudo, porque naquele momento o pasto já virara Getsêmani e caminho do Gólgota.

Eu vi. Lá estava Jesus, magrinho, moreno, em barba rala. Pareceu-me ansioso por colocar sobre os ombros o fardo humano para carregá-lo; e lhe era demasiada a solidão porque, entre tantos, além do Pai, alguns discípulos o abandonaram para cochilar sob as frescas frondes das oliveiras.

Notei que se retirou à distância de um tiro de pedra. Sozinho, ajoelhou-se e orou; do rosto lhe vazaram gotas de sangue; e falou indignado com seus seguidores, que não vigiaram com ele, nem oraram sequer uma vez. Apesar do desânimo deles, ainda mais os amou.

E enquanto suas dores se tornavam agonia, das moitas eclodia estressado pelotão de soldados à romana, armados de espadas e lanças, escudados e em capacetes, como era vital no Império. E, em ritual inédito, não os guiava um centurião, como convinha, mas Judas, o Iscariotes, personagem a quem não raramente imitamos vida afora, às vezes por muito menos que trinta denários.

Espadas e tochas às mãos, nada os deteve; a multidão abria caminho e eles pisoteavam tudo que estava à frente, pedras, touceiras, até as espinhosas de onde tentaram arrancar galhos para costurar a coroa real. A poucos passos dali, assentado em lugar nobre sobre uma pedra, eu vigiava cada lance e aguardava ansioso pelo desfecho, o fatídico beijo, a explosão de Pedro, a quem admiro, as palavras carinhosas de Jesus e o conselho dele de que não se deve praticar vingança.

Com a sacolinha de trinta dinheiros à mão, Judas ofereceu o sinal combinado, fechando-se então o cerco a Jesus. Em meio ao povo que naquele instante já se aglomerava espremido abafando o cenário, um soldado romano entre os mais sarados deu uma gravata no mestre, enquanto outros, já agarrados a seus pés e braços, o ergueram à altura dos ombros para sair dali às pressas.

Estabanados, pisotearam o segredo guardado numa das várias touceiras que pontilhavam o pasto. E dela saiu um enxame de marimbondos amarelos, terríveis tapa-guelas cujas picadas podem causar morte.

Como no estouro do rebanho descrito por Euclides da Cunha, a multidão disparou incontrolada morro abaixo. Entre os que tombaram e foram pisoteados estavam várias crianças, mulheres o padre, Judas e até alguns soldados, quase todos vítima de ferrões envenenados.

De onde estava, procurei por Jesus, mas não o vi mais. Confuso, então, eu não sabia se lamentava a tragédia ou se me divertia com a comédia. De volta ao internato, assaltou-me a certeza de que ali, no palco daquela encenação divina, nada se poderia explicar por tudo estar além da razão; mas que tudo se poderia entender, bastando apreciar o sorriso que me dirigiu uma criança por cuja testa ainda escorria sangue.

Orlando Eller é Jornalista

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Readers Comments (3)

  1. Marilene Alves Ferreira disse:

    Profundo! Reflexivo! Muito bom! Parabéns!

  2. Martinho Krebs disse:

    Orlando: Você me reaviva a certeza de que não apenas formados em teologia e detentores de chamado oficial tem o dom e a profundidade da pregação do evangelho salvador. Fica com Deus.





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