A última ocupação do Leste, por Claudio Lachini
22nd dezembro 2011 · 1 Comment
Depois de exaustiva pesquisa o jornalista Marco Antonio Tavares Coelho brinda o leitor brasileiro com um livro imprescindível para a compreensão histórica da última ocupação dos “sertões” do Leste brasileiro: a do Vale do Rio Doce. Claudio Lachini (*)
Quando eu era criança no interior de Colatina (ES), final dos anos de 1940, ouvia em casa conversas sobre as estradas de ferro que utilizávamos para viajar ao sul do Espírito Santo: a “Diamantina”, para Vitória, e depois a “Leopoldina”, para a estação do Engano, na serra capixaba.
Mais de sessenta anos passados, descubro que a “Diamantina” rimava, mas nunca passou de um projeto, porque a ferrovia que devassou os “sertões”, em busca de Minas Gerais, chamou-se Estrada de Ferro Vitória a Minas, nome que gradativamente foi sendo substituído por Cia. Vale do Rio Doce S/A, empresa estatal encarregada de minerar ferro em Itabira (MG) e adjacências e, na atualidade, simplesmente por Vale, uma empresa pública de capital internacional, que cava buracos mundo afora.
Quem me informa sobre tudo isso é o talentoso e aplicado Marco Antonio Tavares Coelho (Belo Horizonte, 1926), ex-deputado federal cassado em abril de 1964 e ex-dirigente comunista preso e torturado em 1965. Ele lançou pela Autentica (www.autenticaeditora.com.br) o livro “Rio Doce – A espantosa evolução de um vale” (208 páginas, R$ 37,00).
- Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais
A região do rio Doce é o grande centro econômico do Estado de Minas Gerais, ocupado por empresas mundialmente poderosas capitaneadas pelo ramo do aço. Abandonado por mais de três séculos pela coroa portuguesa, que considerava o território “área proibida”, o vale salvou-se da devastação lusitana pela ocupação anterior ao próprio “descobrimento” do Brasil, defendido pelos seus habitantes originais, povos chamados de botocudos porque se adornavam de botoques.
Segundo as informações divulgadas pela editora para o lançamento em Belo Horizonte, ocorrido a 30 de novembro passado, Marco Antonio explica as razões políticas que levaram a Coroa Portuguesa a considerar os “sertões do Leste” como terras proibidas: em primeiro lugar as minas de ouro e depois os diamantes da região do rio das Velhas. É daí, onde haviam sido descobertas jazidas de minério de ferro, que se origina o projeto inicial da ferrovia Vitória a Diamantina.
Ele investiga também o posterior interesse pela ocupação: o minério de ferro e o surgimento dos grandes complexos produtivos como as siderúrgicas Belgo-Mineira, Usiminas e Itabira Iron. Toda essa história está profundamente ligada ao passado do Leste, mas o pertinaz Marco Antonio, que foi durante 18 anos editor-executivo da revista “Estudos Avançados”, da Universidade de São Paulo, conta ainda a história do notável trabalho de Monlevade, uma espécie de antecessor do fictício Fitzcarraldo.
Em Colatina, nossa terra, a ponte Florentino Avidos, inaugurada em 1929.
“Um acontecimento fundamental ocorreu em 1828 – relata Marco Antonio – quando houve a implantação da primeira fábrica de ferro de elevado porte – a do francês Jean Antoine Feliz Dissandes de Monlevade, no distrito de São Miguel do Piracicaba (hoje Monlevade)”. O Piracicaba é afluente do Doce. O pioneiro importou forjas catalãs pesando mais de sete toneladas e levou esses equipamentos pelo rio Doce. As corredeiras e cachoeiras foram vencidas de setembro de 1927 até abril de 1928, sob o comando de outro francês, Guido Thomaz Marlière.
Ao final do livro Marco Antonio entrevista o líder indígena Ailton Krenak, ex-assessor do governador Aécio Neves, que conta a história da ocupação branca e do genocídio indígena na região, além de revelar seu trabalho de conscientização da importância da terra para seus povos, seu renascimento, fortalecimento e respeito pela identidade étnica dos mesmos. O livro tem enorme valor para os estudiosos do tema, e igualmente pelos habitantes do baixo rio Doce, no Espírito Santo, que recebem as águas maltratadas descidas das montanhas.
(*) Jornalista e escritor.




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