Um brinde a Pontes e Fontes
Tião Martins
29th julho 2011 · 0 Comments
Frequentador apaixonado do Mercado Central de Belo Horizonte (passa por lá dia sim e outro também, para verificar se a pinga e o torresmo continuam saborosos), Doutor Fontes leu e aprovou a crônica do coleguinha Rubens Pontes, publicada no portal donoleari.com, de origem capixaba.
Rubens, conterrâneo que tem alma de cigano e já andou pelo Planalto Central, antes de amarrar seu barquinho na terra benzida pelo padre José de Anchieta, ao passar por Belo Horizonte sempre reserva tempo para revisitar o Mercado e abraçar os amigos (que, coincidência ou não, também aparecem por lá).
Em sua mais recente e vertiginosa passagem (e antes mesmo de degustar a obrigatória costelinha frita e a insuperável moela ao molho de pimenta), Pontes foi tomado de súbita e natural nostalgia, acompanhada de exclamação quase bíblica:
- Meu Deus, e o Tavares? Por onde anda o Tavares?
Aqueles que nunca rezaram nos templos da gastronomia ignoram que Tavares é esse, mas saibam esses pagãos que nosso Rubens estava elevando sua prece a um lugar consagrado: o Restaurante Tavares, que por muitos anos foi vizinho do Mercado Central e quase um símbolo da simplicidade e do sabor de Minas.
Deixemos que Rubens, o iniciado, fale de sua paixão (compartilhada por todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecer o velho Tavares). Os iniciados reconhecerão que há amor e verdade em cada sílaba do relato, ainda que o Ibama discorde dos ingredientes:
- Reconheci o local: era ali que funcionava o Restaurante Tavares, local onde se podia mergulhar fundo no prazer lúdico do feijão tropeiro, do leitão à pururuca, de pratos que faziam tremer os seguidores de Abraão – animais de cascos partidos – paca, porco-do-mato, veado campeiro.
Sim, meninas e meninos, os bichos da natureza, naquela época, eram irmãos dos homens e não um artigo do Código Penal. E cada prato que o garçom erguia aos céus era uma oferenda aos homens e aos deuses, por um momento aliados.
No Tavares, depõe Rubens, a democracia reunia jornalistas e feirantes, magistrados e carroceiros, advogados e clientes, todos eles livres de pecados e culpas, em torno de um caldo de mocotó ou de rabo de jacaré, preparado em fogão a lenha, onde crepitava madeira da melhor qualidade.
Tudo isso seria hoje tão politicamente incorreto que alguns leitores já se sentem cúmplices de um crime e nem irão até o fim, coitadinhos. Quem mandou nascerem tão tarde?
Para Rubens, entretanto, o Tavares sempre foi um monumento à inocência, ainda não tocado pelo discurso terrorista do colesterol, que hoje provoca infartos e rouba o sono e a saúde dos fanáticos comedores de folhas.
Arriscando-se no pantanoso território da Medicina contemporânea, o cronista ergue um brinde aos inocentes do passado, na forma de uma teoria que seria aplaudida de pé, no Tavares, se Tavares ainda houvesse:
- Um dia vai chegar em que pesquisas cientificas dirão que viver bem é morrer aos poucos, de colesterol progressivo, causado por lombos assados e pele tostada de leitão, e não de uma só vez, num inglório infarto fulminante.
Após ler a crônica do Rubens para os seus amigos do Mercado Central, Doutor Fontes sugeriu mais uma pinga e outra generosa porção de torresmo e moela. E ergueu o seu próprio brinde, típico dos heróis da resistência dos tempos do Tavares:
- Ao prazer e aos amigos, tudo; a esse tal de colesterol, um lugar no inferno.
